terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CONTO DE NATAL - escrito para o natal de 2002.




   Foi uma grande surpresa quando eu soube, lembro ainda como se fosse hoje. Eu estava sentado no lado da escada do museu quando ouvi a conversa. Seu Nestor contava pra Dona Lucia que já tinha pedido várias vezes para trocar aquela fechadura e ninguém dava conta, era só enfiar qualquer chave nela que abria. O mais importante é que eu tinha uma qualquer chave.
   Eu conhecia cada detalhe daquele museu. Com as mãos para trás, como exigia seu Nestor, quase todo dia eu passeava lá por dentro. Não tinha nada de muito valor, como ele dizia, o valor era histórico, mas eu me deslumbrava com o grande relógio de pêndulo, a máquina de escrever do primeiro delegado da cidade, a vitrola, com aquele grande ouvido saindo dela e, principalmente, o imenso piano de cauda, com esculturas de anjos entalhadas na sua madeira É claro que eu tinha uma qualquer chave!
   Minha casa, se aquilo podia ser chamado de casa, ficava bem longe do centro da cidade e, mesmo sendo verão, as madrugadas andavam frias. Além do mais, o espaço era pouco para dividir entre sete pessoas, isso quando meu pai não passava da conta no boteco e botava todo mundo pra correr.                      
      Seu Nestor ia embora perto das sete da noite, só que, nesse horário, ainda tinha muita gente ali pela frente. Estávamos perto do Natal, por isso o comércio estava ficando aberto até mais tarde. Perto da meia noite eu colocava minha qualquer chave na fechadura e... não deu outra, só que o rangido daquela porta de manhã, quando seu Nestor abria o museu, era um sussurro comparado ao grito desesperado que ela fez ouvir em toda a rua solitária. Com certeza, no outro dia, eu reclamaria do descaso, afinal, o que custa para prefeitura um pouquinho de graxa. Por sorte o barulho não chamou a atenção de ninguém, entrei como um raio cortando a noite e fechei a porta atrás de mim. Assim descobri que, se abrisse e fechasse ela rápido, quase não fazia barulho. 
    Ninguém havia me falado como era escuro aquele museu de noite. Eu não conseguia enxergar absolutamente nada. Nem sei quanto tempo tive que ficar ali, fazendo de conta que estava esperando para me acostumar com a escuridão, mas, na verdade, morrendo de medo de dar um passo lá dentro.
   Sabia que a menos de três metros de mim havia outra porta. Enchi o peito, prendi a respiração e fui. Outro rangido, parecendo um gato miando pra lua. Era tarde para recuar, eu achava. Lá, no final do grande salão, no canto direito, atrás do antigo púlpito da Igreja Matriz, estava meu novo leito: o grande piano de cauda, coberto por um grande pano branco, meu lençol, travesseiro e cobertor.
    Dobrei-o em três, deitando sobre duas partes e usando a terceira pra me cobrir. Uma cama de príncipe. Ainda fiz mais uma dobra e tive um travesseiro, um pouco baixo, mas, um travesseiro, pra quem nunca tinha tido um, estava ótimo.
     A noite estava especialmente silenciosa e eu já havia me acostumado com a escuridão, podendo divisar quase todas as peças do salão principal do museu e o grande cortinado de seda que havia sido da casa do fundador da cidade. Durante o dia, era muito bonito de ver o tecido lustroso, com babados e franjas espalhadas em inúmeros panos, mas, no meio daquela escuridão, aquele cortinado parecia outra coisa. Virei de costas pra ele e foi pior, era como se aquelas cortinas fossem voar e me atacar por traição. Voltei-me novamente e, depois de quase meia hora sem conseguir tirar os olhos daquela cortina de seda, resolvi enfrentar o fantasma. Fui até ela e a toquei, com uma valentia que nem eu imaginava que tinha. Abracei-me a ela, até que ficássemos amigos.
      Voltei ao meu leito Divino e, de longe, acenei para ela. Por que fiz isso!?
É claro que não acreditei no que eu havia acabado de ver: ela acenou-me também. Impossível, seu Nestor deveria ter deixado aberto a janela e o vento... que vento? Não tinha vento nenhum na rua. Por mais que eu tentasse me mexer e terminar meu ato de deitar, interrompido no meio, não conseguia. O pano maior da cortina havia me acenado e não havia nenhum vento.
      Quando meu braço esquerdo começava a doer por estar sustentando, sozinho, todo peso do corpo, outra surpresa: do meio do cortinado ele apareceu, com um impecável terno branco e chapéu de filme de malandro antigo. Olhou-me e sorriu, creio que o sorriso mais amigo que um moleque de rua já tenha recebido, depois, veio em minha direção. 
      O braço esquerdo não suportou mais, nem eu, ambos caímos, desacordados. Graças a Deus!
                ***
    Voltei a mim num salto, quando soaram as primeiras notas da música: gingo bel... gingo bel... e, estarrecido, vi que era ele quem tocava o piano, ainda sorrindo para mim e parecendo estar viajando na música que tocava.
      Mesmo com aquele sorriso eu queria correr, fugir dali aos gritos desesperados, alardear a cidade toda, bater na porta do seu Nestor, avisar o prefeito, a guarda urbana, seu Manequinha padeiro, o padre... mas, não conseguia. Minha voz não saía, minhas pernas pareciam de pedras, o máximo que, creio, consegui fazer, foi emitir um grunhido, como um cachorro rosnando dormindo. Ele deve ter me ouvido e acho que foi pior, parou de tocar e parou de sorrir, olhando-me, pela primeira vez, seriamente. Tirou o chapéu e colocou-o sobre o piano, depois me perguntou, com a maior naturalidade:
    —  Eu o assustei?
     Ah! Seu eu conseguisse emitir algum som naquela hora! Daria a ele a resposta merecida! Como eu me mantinha calado, com os olhos quase saindo da cara e de boca aberta, acho que ele entendeu minha resposta muda. Colocou o chapéu, novamente, e falou;
    —  Vou tocar outra música, para acalmá-lo.
    “Noite feliz... noite feliz... ó Senhor, Deus de amor, o menino nasceu em Belém...
    Agora ele tocava e cantava, olhando-me de maneira tão delicada que, aos poucos, meus músculos foram se soltando.
    — Que... que... quem...  é... vo... você? — consegui gaguejar, quando ele terminou de tocar e ficou me olhando, como se esperasse que eu aplaudisse. Ele brincou um pouco, fazendo sons bonitos no teclado, depois parou e respondeu:
    — Eu sou o dono deste piano...ou fui...
    — Dono! Como assim? Seu Nestor me falou que esse piano foi doado ao museu e que tem mais de 150 anos.   
    — Nossa! Já faz tanto tempo assim? Como o tempo passa rápido!
    — O que você quer dizer com isso?
    Ele tirou novamente o chapéu e o colocou no mesmo lugar sobre o piano, depois suspirou fundo, com o olhar perdido, como se estivesse longe no tempo,  então respondeu:
    — Papai mandou este piano vir da Itália, de presente de Natal para mim. Eu o esperava todos os dias na beira do cais. Toda a embarcação que aparecia no horizonte, meu coração disparava. Na cidade só havia o velho cravo da Madre Maria, com quem eu tinha tido aulas. Ainda lembro, com tristeza, o dia que o Navio Imperial entrou pela barra do rio, bem na véspera de Natal. Eu sabia que ele estava lá dentro. Lamento até hoje minha ansiedade...
    — Mas, o que aconteceu?
    —  Quando os carregadores tiravam a grande caixa pela ponte de desembarque, um deles escorregou e a caixa veio abaixo, escorregando pelas tábuas húmidas, da garoa que caía. Eu tinha 14 anos e imaginei que poderia segurá-la sozinho. Que besteira! Com a batida eu voei longe e fui cair dentro do rio, com a maré vazante. Tenho certeza que me procuraram muito, mas...
    —  Então...
    Ele olhou-me e, mesmo estando apavorado, não pude deixar de ficar com pena. Meu Deus! Eu, com pena de um fantasma!
   — Quando eu me recuperei, fiquei sabendo que meu pai, como era de se esperar, tinha ficado quase louco com minha morte, não deixou nem que abrissem a caixa e doou-o à Igreja matriz. Madre Maria não conseguia mais tocar e não havia na cidade, naquela época, quem o soubesse. Por muito tempo este piano não foi tocado. Como eu tenho me comportado bem, na época de Natal, me permitem vir aqui e tocá-lo...
    Ele parou de falar, colocou o chapéu e tocou outra música que eu não conhecia, mas, que era maravilhosa. Um fantasma morto há 150 anos tocava piano para mim, no meio da noite, dentro de um museu, e eu tinha perdido totalmente o medo.
    — É uma Sonata de Bach, uma das minhas preferidas. Se me permite, vou continuar tocando, tenho que ensaiar para a apresentação de amanhã...
    —  Que apresentação?
    —  Amanhã é véspera de Natal. Eu me apresento aqui, para um grande número de convidados.
    —  Aqui?
    —  Sim, por que a surpresa?
    —  Quer dizer que amanhã isso aqui vai tá cheio de fantasmas?
    —  Se você prefere chamar a gente assim... vai ter bastante gente importante aqui amanhã, e você já está convidado.
    —  Mesmo? Eu posso vir?
    —  O convite está feito, agora, chega de conversa que eu tenho que ensaiar...
    Ele tocou muito, músicas lindas, entre elas, algumas musiquinhas de Natal que eu conhecia. Dormi embalado num som que só podia vir do céu.
                                                                    ***  
     O ruído da porta de frente me fez pular, num único salto, de cima do piano e esticar, como um raio, o grande pano branco sobre ele. Agora não adiantava tentar sair, Seu Nestor já vinha pelo salão principal, observando se estava tudo bem. Fui para trás do púlpito, para que ele não me visse e, quando ele virou-se, me viu, de mãos para trás, olhando o grande piano de cauda, com seus anjos entalhados:
    —  Você já está por aqui, moleque? Nem vi você entrando.
    —  Acordei cedo hoje...
    —  E já tomou seu café da manhã?
    —  Eh... claro!
    Ele sorriu e tirou do bolso uma moeda de um real, colocou sobre o piano e continuou olhando as outras peças do museu. Seu Nestor era uma pessoa boa, muitas vezes me pagava uma média com pão e manteiga. Como eu estava por ali, logo cedo, imaginou que era isso que eu queria. Dei sorte, escapei de ser pego e ainda ganhei meu café da manhã.
Antes de sair, ainda olhei para o piano e para o grande cortinado de onde meu amigo fantasma tinha saído. Acabei não perguntando o nome dele, mas, que diferença isso fazia? 
    Sentei na escada do museu e fiquei olhando para moeda de um real, alguma coisa estava me entristecendo. Era véspera de Natal e a cidade já estava fervilhando. Era um dia ótimo para ganhar uns trocados: muitos carros para cuidar, carrinhos de supermercado para empurrar e muitos outros bicos. Natal passado deu pra fazer 50 reais na véspera. Pena que meu pai descobriu e boa parte disso virou cachaça.
    Eu nunca era de ficar me lamentando daquela vida que levava. Tinha treze anos e vontade de estudar, mas, se estudasse, quem levava um pouco de grana pra minha mãe, que era gente boa e gostava muito de mim?
Nas redondezas, os comerciantes e fregueses me conheciam, muitos me ajudavam com roupas e comida. O seu Lau me deixava dormir no sofá do fundo da garagem dele, desde que eu ficasse de olho na casa, mas, as molas já estavam furando o tecido e os gatos da dona Neusa passavam o dia nele, o que não deixava um cheirinho muito agradável. Mesmo assim, dava pra ir levando, ainda mais agora que eu tinha um amigo fantasma. Será? Será que não foi apenas um sonho? Claro que sim, só podia ser um sonho, eu estava assustado com o local, dormi e transformei meu medo em sonho. O dia, os carros, as calçadas e pessoas, agora me davam a certeza da realidade. Como eu pude acreditar ser verdade? Se fosse algum fantasma tocando piano, como é que outras pessoas não iam ouvir e achar estranho?
    O cheirinho de café da padaria da esquina veio me buscar e pedir a minha moeda de um real, o valor exato da média com pão e manteiga (ao menos era o que me cobravam). Não sei se foi o sonho ou a tristeza que me invadia, que me fez atravessar a rua distraído, só me dei conta do que fazia quando ouvi o grito do pneu e vi o capô do carro vermelho muito próximo de mim. Felizmente o motorista foi de uma perícia incrível, só deu tempo de eu me encolher e ele conseguiu desviar, mesmo assim me bateu de leve e caí. O carro parou em seguida, mas eu levantei rápido e corri dali, não estava afim de ouvir sermão, principalmente porque o culpado era eu, por andar distraído.
     Quando cheguei na padaria descobri que tinha perdido a moeda de um real. Que pena! No entanto, talvez pelo susto, a fome havia passado. A única coisa que eu sentia ainda era aquela tristeza. Eu nunca fui triste, mas, hoje, parecia que todas as poucas lembranças da vida estavam me incomodando.
    Deu vontade de ir ver dona Lola, minha mãe. Mesmo sendo véspera de Natal e sabendo que era dia de ganhar uma grana, não dava vontade de trabalhar. Fui pra casa e foi ainda pior. Por lá estava uma tristeza só, como todo ano nesta época, minha mãe era uma choradeira. Voltei pra rua e passei o dia vagando, sem rumo, até anoitecer. A cidade estava uma mistura de alegria e frustração que só quem é da rua consegue perceber: alegria de quem tinha uma grana para presentes e festas; frustração pra quem, mais uma vez, não tinha ganhado o suficiente.
    Apesar da minha idade, tinha alguns pensamentos sobre o Natal. Sempre achei estranho as pessoas darem tanto valor ao que se pode comprar e, também, nunca concordei que o “dar e receber” do Natal fosse tão material. Eu via as pessoas entrando nas igrejas para encontrar Deus, chegando com seus carrões brilhantes e roupas impecáveis. Será que iam mostrar isso pra Deus? Sempre me perguntei por que as pessoas, no Natal, não saem pra rua e abraçam as outras? Por que não fazem uma grande festa em praça pública, pra todos participarem. Cada um daria um pouco do que tem e todos ficariam alegres. Tenho certeza de que, se tivesse pra todos, não haveria confusão.
    Tudo bem que o sorriso de um filho com o presente novo deve ser uma grande alegria para os pais, mas... bem, e quantos filhos que não sorriem? E quantos pais que se entristecem por não poderem presentear? Daí reclamam da violência. O mais simples de se fazer contra a violência, quase ninguém faz: ser amigo, dar um abraço, compartilhar um pouco o pouco, ou o muito, ou, ao menos, o que sobra, mas, parece mais fácil reclamar da polícia e dos políticos, do que estender a mão e sorrir, ao contrário de se fechar em suas casas de altos muros, com alarmes e vigias espalhados. Às vezes me pergunto: quem está se protegendo, eles de nós, ou nós deles?
    Além do mais, o sorriso do filho não seria ainda mais bonito se fosse junto com uma criança pobre, que quase nunca ganha um presente novo? Por que os pais não ensinam isso aos filhos: partilhar? Alguém perde alguns minutos, olhando o brilho triste que se acende nos olhos de quem não pode comprar, na frente das vitrines encantadas, espalhadas pelas ruas? Lágrimas sem nome, esquecidas de quem ri. Se eu fosse Presidente, mandava construir escolas onde se ensinasse a compartilhar, tenho certeza que iria sobrar mais espaço nas cadeias.
    A mola do sofá do seu Lau estava incomodando mais que nos outros dias, e o cheiro de gato estava insuportável. Fui até a escada do museu e olhei a hora na torre da matriz: quase meia noite. Meu amigo fantasma logo deveria se apresentar. Ri do meu pensamento e descobri que estava morrendo de medo de entrar, mas, não tinha outro local pra dormir e os risos e cantigas de Natal, que se ouvia na cidade, me incomodavam, como nunca.
                                                                 ***
    Quando cheguei perto da porta, ela abriu-se, desta vez, sem fazer barulho e meu amigo fantasma abriu seu delicado sorriso. O coração, mais uma vez, deu um salto: então não era sonho!
    —  Estávamos esperando.
    —  A mim?
    —  Sim, hoje você é o meu convidado especial.
    Por momentos tive dúvidas se aquilo estava acontecendo de verdade ou se era mais um sonho. Quem sabe eu estivesse dormindo lá no sofá do seu Lau? Mesmo assim, sendo ou não um sonho, por que não entrar?
    O salão principal do museu estava diferente, ainda eu podia ver as peças antigas que me encantavam, mas ele estava maior, e muitas pessoas estavam espalhadas nele. Todos me olhavam e sorriam, comemoravam a noite de Natal, com lindas roupas brancas. Seria aquilo uma reunião de anjos?
    —  Anjos, propriamente, não – falou meu amigo fantasma, como se estivesse lendo meus pensamentos. – Hoje podemos ser chamados de Espíritos do Natal. Durante o ano trabalhamos para o bem, ajudamos as pessoas que ainda lutam aqui na Terra. Todos aqui têm um elemento em comum: morremos cedo, ainda na juventude.  Viemos para a Terra por um curto período, para que registrássemos na memória as lutas e dificuldades do ser humano, para que, agora, no outro lado da vida, puséssemos ajudar com mais eficiência. Na época do Natal temos um trabalho especial. Você já ouviu falar no Espírito Natalino?
    —  Já, mas só de ouvir falar mesmo, na prática a coisa tá feia.
    —  Pois é. Nesta época, a maioria das pessoas se predispõem a atitudes mais nobres, de perdão, paciência, caridade...
    —  Ah é! Tem certeza?
    — Tenho sim. Sei que tem sido difícil pra você, mas, nesta época, aproveitamos para ajudar as pessoas a darem grandes passos evolutivos. Situações que se arrastam por longo tempo, muitas vezes, são resolvidas pela ajuda do Espírito Natalino. O perdão é o vento que move a nave do destino, enquanto que a mágoa é a âncora que a prende...
    —  Então vocês são Espíritos Natalinos. Pensei que isso fosse invenção... e o que eu faço aqui entre vocês?
    —  Você é meu convidado, já disse. Na verdade, eu sou o mais velho do grupo...
    —  Então você é o chefe aqui...
    — É, pode-se pensar assim. Através dos tempos, a morte sempre foi o grande drama humano, no entanto, todas a vezes que passamos por ela, descobrimos que morrer é apenas renascer. A vida continua em sua plenitude, enquanto as pessoas a desconhecem, por isso, ajudamos a conhecê-la. 
    —  O que você quer dizer com isso?
    — Hoje você pensou muito nas dificuldades do ser humano, foram grandes pensamentos...
    —  É, o Natal sempre me deixa assim...
    —  Veja, é meia noite, hora de comemorarmos a vida...
    Meu amigo foi para o piano. Tocou músicas lindas e cantamos com ele por muito tempo. O dia quase amanhecia quando todos começaram a sair. Foi uma noite linda, o melhor Natal que eu já passei, junto com meus amigos fantasmas.
Meu amigo chegou perto de mim e abraçou-me, com carinho. Pensei que ele estava se despedindo, por isso fiquei ainda mais surpreso quando ele me falou:
    —  Quer trabalhar comigo, no meu grupo?
    —  Como assim? Minha vida é uma dureza, mas, eu tenho minha alegrias...
    —  E quem disse que você não vai continuar vivendo? A morte é apenas da matéria.
    —  Mas eu não posso me matar...
    —  Não precisa...
    —  ???
    —  Querido amigo, já está feito...
    —  Feito o quê? O que você quer dizer com isso?
    —  Você ainda não sabe?
    Por instantes tive a impressão que meu peito ia estourar. Não sei dizer, ao certo, o que senti. Alegria e tristeza se misturavam com velocidade. Sorri, com o rosto cheio de lágrimas e abracei de novo meu amigo fantasma. Fantasma! Não podia mais chamá-lo assim.
    —  Então o acidente foi mais grave do que pensei?
    —  É...
    —  Mas, eu nem percebi.
  — A maioria nem percebe quando acontece. Você é um dos nossos, veio para experimentar, na pele, as carências humanas. Agora é hora de voltar e trabalhar, se quiser, pode ser no meu grupo.
    —  É claro que quero!
    — É Natal e nós, os Espíritos Natalinos destes dias, temos muito o que fazer... como você sabe: as crianças na frente das vitrines, os pais que não puderam comprar os presentes, os irmãos que não se conversam, os casais que não se perdoaram, as pessoas com seus carrões brilhantes e roupas impecáveis, os que não conseguem se doar... é, temos muito o que fazer. Este ano você é meu assistente.
    —  E minha mãe?
    Ele me olhou como se eu tivesse falado besteira, depois, somente apontou o dedo pra cima, sem fazer comentários, como se me cobrasse por não crer em Deus, mesmo com tudo o que estava acontecendo comigo. Meu amigo abraçou-me e fomos para fora do museu. Passei o dia de Natal próximo do coração humano, vasculhando, lá dentro, até encontrar Deus. Muitas pessoas mais endurecidas não conseguiam coloca-lo pra fora, outros sorriam, outros choravam, alguns abraçavam um desafeto, outros pensavam em seus erros e se predispunham a mudar, alguns já tinham escondido tanto Deus que nem nos ouviam. Tantos pensavam melhor na vida e imaginavam ser possível torná-la melhor.
     Era Natal, e eu estava aprendendo o que isso realmente significava: a Natalidade eterna da vida, o renascer incessante, nos levando muito além da morte, muito além de todos os Natais.
 .
foto de: denataljamoseh.blogspot.com

8 comentários:

Anônimo disse...

E já que é Natal, aproveito pra te desejar um muito feliz, um Ano Novo da melhor qualidade e um 2012 cheinho de coisas boas, paz, amor e harmonia.
bjk

mauro camargo disse...

obrigado Monica
vamos juntos nesta balada de distância que não é distância por aqui...

Arthur Golgo Lucas disse...

Feliz Natal, Mauro! Quem sabe em 2012 podes me apresentar um de teus amigos "fantasmas" pra abrir a mente deste teu amigo agnóstico aqui? :-) Pode ser durante aquela pescaria que temos que planejar... desde que não seja o pessoal do Holandês Voador, tudo bem? :-P

Um grande abraço e até breve!

mauro camargo disse...

ou então a gente desdobra e vai com o holandês voador conhecer ao vivo (ou ao morto?) o mundo dos fantasmas...

Arthur Golgo Lucas disse...

Esse "desdobrar" está com mais cheiro de eufemismo do que as ovas de lascívias de metáfora. :)

mauro camargo disse...

ah, mas desdobrar pode ser mesmo suave... e do lado de lá as ovas de lascívia devem ser ainda mais saborosas...

Grasi disse...

lindo e emocionante como tudo que você escreve! Muitas verdades para pensar e agir...

mauro camargo disse...

eeeeeeeeeeeeeeee...